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O feminismo antirracista de Djamila ensinando ao povo como pegar a visão

ECOA UOL • Aos 41 anos, a filósofa, ativista e escritora Djamila Ribeiro, nascida em Santos (SP) é um dos principais nomes da luta contra o racismo no Brasil. Seus livros "Lugar de fala", "Quem tem medo do feminismo negro?" e "Pequeno Manual Antirracista" venderam, juntos, mais de 500 mil exemplares no país

“Luta ambiental sem trazer a questão racial é vazia”: Djamila Ribeiro, a filósofa best-seller


PEGA A VISÃO

FONTE: ECOA UOL

Capitã da geração
Sua espada é sua caneta
Claridade é sua competência
Ensinando ao povo
Pegar a visão
Djamila Ribeirão de Luz

Os versos acima fazem parte da música “Djamila Ribeirão de Luz”, da cantora e compositora baiana Margareth Menezes em homenagem a Djamila Ribeiro. Aos 41 anos, a filósofa, ativista e escritora nascida em Santos (SP) é um dos principais nomes da luta contra o racismo no Brasil. Seus livros “Lugar de fala”, “Quem tem medo do feminismo negro?” e “Pequeno Manual Antirracista” venderam, juntos, mais de 500 mil exemplares no país, sendo que o último ocupou o topo da lista de mais vendidos da Amazon Brasil no ano passado.

Com linguagem simples e didática, “Pequeno Manual Antirracista” foi adotado por escolas de todo o Brasil e é lido por negros e brancos de diferentes faixas etárias. “O livro foi pensado para sair das bolhas do ativismo negro e do meio acadêmico e atingir um público mais amplo. É preciso trazer as pessoas brancas para esse debate”, defende Djamila. A escritora critica a polarização no país, amplificada pelas redes sociais, que impede o diálogo maduro e produtivo: “Precisamos sair dessa lógica do tudo ou nada, do extremismo burro que busca deslegitimar e apagar uma pessoa só porque ela não concorda com você.”

A filósofa, que é professora da PUC-SP e especialista em feminismo negro, cita o exemplo do debate acadêmico, onde é possível concordar em alguns pontos e discordar de outros com base em argumentos racionais. “Eu, por exemplo, amo [a escritora feminista] Simone de Beauvoir [1908-1986]. Estudo, leio e admiro os livros dela. Mas, em determinadas análises, a gente se distancia e está tudo certo. Não é preciso concordar em tudo.”

Em entrevista a Ecoa, Djamila falou sobre seu novo livro, “Cartas para minha avó” (Companhia das Letras), os avanços e retrocessos na conquista de direitos da população negra no Brasil, a necessidade dos movimentos de esquerda se voltarem para o trabalho de base nas periferias e declarou que não descarta, no futuro, entrar para a política: “Nunca diga nunca”.

“Racismo entrou no debate público”


Ecoa – Que avanços você enxerga na luta contra o racismo no Brasil nos últimos 30 anos?

Djamila Ribeiro – É inegável a questão das ações afirmativas na área da educação, fruto de lutas históricas dos movimentos sociais. Sou a primeira pessoa da minha família a acessar a universidade por conta dessas políticas. Não fui cotista, mas estudei num campus [Guarulhos, da Unifesp] que foi inaugurado em 2007, como resultado da expansão das universidades públicas. Isso aumentou o número de pessoas negras com acesso à universidade. No mercado de trabalho, houve avanços com a lei federal de 2014, que estabeleceu cotas para pessoas negras no serviço público federal. Na iniciativa privada, empresas como a Magazine Luiza abrem processo seletivo só para pessoas negras. No mercado editorial, há mais autoras negras e autores negros sendo publicados. De forma geral, o assunto do racismo entrou no debate público no país. São conquistas visíveis e importantes, mas temos um longo caminho pela frente e, no momento, vemos o desmonte de muitas dessas políticas.

Em que áreas é mais urgente avançar?

O debate mais urgente, sem dúvida nenhuma, é o da segurança pública. O número de assassinatos de jovens negros atinge níveis alarmantes e, infelizmente, essa violência é naturalizada. O Brasil passa uma imagem internacional de um país de pessoas amáveis e cordiais, mas é profundamente violento com os grupos historicamente discriminados. Como feminista negra, falo de uma perspectiva interseccional: somos o quinto país [no ranking mundial] em feminicídio, o quarto em casamento infantil, a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado, estamos entre os que mais matam a população LGBTQIA+. Não tem como pensar um projeto de país sem pensar essas realidades e propor uma perspectiva intercruzada de raça, classe e gênero.


Além do “radicalismo narcisista”


Como você avalia o impacto dos assassinatos de George Floyd e João Pedro há mais de um ano? Houve mudanças?

O assassinato do João Pedro nem de longe reverberou tanto quanto o do George Floyd no Brasil, mesmo ele sendo um adolescente brasileiro. Um menino de 14 anos assassinado dentro de casa deveria ter parado o país. As redes sociais são importantes, mas a coisa vazia do “radicalismo narcisista” me incomoda: “Eu preciso dizer que eu estou revoltada”, e, no momento seguinte, posto uma selfie qualquer e a vida segue. Muitas vezes não há, de fato, um comprometimento real com aquilo. Em vez de apenas darem opinião, as pessoas podiam usar as redes sociais para divulgar e pedir contribuições para as organizações que trabalham com o tema e que, de fato, fazem a diferença na vida de quem sofre racismo.

Como promover o diálogo num país polarizado?

É preciso falar para além das nossas bolhas. Há setores da esquerda que ficam num lugar arrogante: “Ah, é todo mundo burro, não sabem de nada”. Ficam romantizando a pobreza como se o nosso objetivo não fosse justamente o enfrentamento da pobreza. Não é legal ser pobre. As igrejas evangélicas estão ganhando espaço nas periferias porque muitas vezes cumprem o papel do Estado e oferecem o discurso da prosperidade: “Você vai melhorar de vida”. Muitas vezes o cara negro na periferia, com terno e a Bíblia debaixo do braço, não é abordado pela polícia. Há uma diferença entre política de identidade e identidade política. O cara na periferia pode ser pobre, mas homofóbico. Aí ele se identifica com [o presidente Jair] Bolsonaro (sem partido) porque é homofóbico. A dona de casa pode ser pobre, negra, mas evangélica. Ela vota no Bolsonaro porque “ele vai defender os valores da igreja”. As pessoas de fora não entendem essas questões e ficam na posição de: “Ah, ele é evangélico, não vou conversar com ele”.

Se não sair dessa arrogância e não entender como essas dinâmicas funcionam, vai ficar difícil se comunicar com essas pessoas e conquistar seus votos.

Solidariedade feminina


No lançamento do seu novo livro, “Cartas para minha avó”, você convidou mulheres como Camila Pitanga e Teresa Cristina para relembrarem as trajetórias de suas avós. A construção de um novo Brasil passa pelo resgate dessa ancestralidade e pela solidariedade feminina?

Sem dúvida nenhuma. Essa solidariedade é importante para quebrar com a ideia da rivalidade feminina. Quando surge uma vaga de trabalho para mulheres, ficamos brigando entre a gente e não questionamos quem, de fato, nos tira as oportunidades. Isso é fruto de um processo histórico. Sou filha e neta de empregadas domésticas. São exemplos de “mulheres que limpam o mundo”, como diz a [cientista política] Françoise Vergè, e que foram invisibilizadas pela história escrita pelos vencedores. Não se dá o devido valor a essas mulheres que tiveram papel fundamental para o funcionamento da sociedade. Para que os homens pudessem sair e conquistar o mundo, existiram essas mulheres tomando conta da casa. Esse lugar foi imposto e deve ser questionado.

Um dos grandes desafios do nosso tempo é a questão ambiental. Nesse ponto, a população negra também sofre mais: está mais sujeita a viver em locais com falta d’água, esgoto, áreas verdes e ar limpo. Você vê uma intersecção entre o debate ambiental e a luta contra o racismo no Brasil?

Sem dúvida nenhuma. O termo “racismo ambiental” foi cunhado nos Estados Unidos por Benjamin Franklin Jr. [líder afroamericano de direitos civis] e vem sendo discutido no Brasil, mas não ganha a visibilidade que merece. Essa luta ambiental sem trazer a questão racial é vazia porque, mais uma vez, são os povos negros e indígenas os mais afetados pela degradação ambiental. Tem uma ativista que acho muito interessante, a Vanessa Nakate, uma jovem de Uganda, país africano que passou pelo processo de exploração de recursos para o enriquecimento de nações europeias. Ela faz uma intersecção entre justiça climática e justiça racial.


Futuro político


Em que projetos você está trabalhando agora?

Sou coordenadora da Coleção Feminismos Plurais, da Editora Jandaíra, e vamos lançar dois títulos até dezembro: “Trabalho Doméstico”, escrito pela professora Juliana Teixeira, da Universidade Federal do Espírito Santo, e a tradução para o português de “Black Power”, do Stokely Carmichael [um dos líderes do movimento por direitos civis dos anos 60 nos EUA].

Você tem planos de se candidatar a algum cargo político?

Em 2016, trabalhei na gestão do [ex-prefeito de São Paulo Fernando] Haddad (PT) como secretária adjunta de Direitos Humanos. Nesse momento, não tenho nenhuma vontade de me candidatar a nada, estou totalmente focada nos projetos editoriais e na vida acadêmica. Mais para frente, pode ser que me interesse. Quem sabe?

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