Bob Marley leva um tiro no peito e vai para o show

Em 1976, ano de eleições e um dos períodos mais sangrentos da história da Jamaica, Bob quis dar um show gratuito pela paz e pela união da juventude.

Dois dias antes do show, sua casa foi invadida por pistoleiros do candidato da oposição

Foram feitos mais de 80 disparos contra Marley e os músicos; a bala passou perto do coração do cantor.

PEDINDO PAZ PARA A JAMAICA E PARA O MUNDO

Profissão de Fé

Apesar dos conselhos e alertas, Bob resolveu subir ao palco do festival, dois dias depois de ter sido baleado.

Ainda com os curativos, Marley apresentou-se no concerto “Smile Jamaica” pela paz, e depois mostrou os seus ferimentos ao público.

FONTE: WIKIWAND

Havia, praticamente, uma guerra civil entre jovens militantes, que defendiam partidos distintos.

 

Bob Marley quis dar um show gratuito pela paz e pela união da juventude.

O então primeiro-ministro, líder do partido PNP, Michael Manley, apoiou e deu força à ideia do concerto pela paz, para supostamente apaziguar as tensões antes das eleições, marcadas para dali uns dias. Dois dias antes do show, a casa de Bob Marley, na Hope Road Avenue, foi invadida por um grupo de pistoleiros defensores do candidato Edward Seaga, do Partido Trabalhista Jamaicano (JLP), opositor a Michael Manley, que invadiu a sala onde Marley estava a ensaiar, e disparou tiros em todas as direções, com o intuito de matá-lo.

Miraculosamente, ninguém foi morto no ataque noturno.[9]

A casa foi rapidamente invadida, dentro de cinco minutos, os homens entraram na casa de Marley, disparando contra todos e fugiram. Não foram capturados e nem se soube quem eles eram ou para onde foram.[10]

Casa de Bob Marley, na Hope Road Avenue

Don Taylor, empresário de Marley, estava a aproximar-se dele no exato momento em que os homens começaram a disparar, levando vários tiros e tendo, como legado deste fato, uma vida sobre a cadeira de rodas. Rita Marley levou um tiro de raspão na cabeça. O projétil ficou alojado em seu couro cabeludo. Marley recebeu um tiro, que raspou seu peito logo abaixo do coração e penetrou profundamente em seu braço esquerdo. O caso de Marley foi o menos grave entre os atingidos, sendo o primeiro a sair do hospital.

“Conquer the devils with a little thing called love. If puss and dog can get together, why can’t we love one another?”

Conquiste os demônios com uma coisinha chamada amor. Se o gato e o cachorro podem ficar juntos, por que não podemos nos amar?

Bob Marley

Bob Marley no evento do dia 5 de dezembro de 1976, ‘Smile Jamaica’, com os dois candidatos rivais e seus músicos, no palco do show.

Artigo da BBC reconstrói a cena do crime e o contexto histórico

Uma questão política entre adversários a primeiro-ministro da Jamaica em 1976, foi o motivo do atentado a tiros, que Bob Marley, sua esposa Rita e seus músicos sofreram. Foram mais de oitenta tiros disparados. 

 “Cena de fuzilamento.” Vivien Goldman

O dia em que tentaram matar Bob Marley com um tiro no coração

FONTE: BBC MUNDO • Martin Riepl, em 6 setembro 2016

Dois policiais foram designados para cuidar de sua casa, que também era onde o The Wailers ensaiava. Mas na noite do atentado, os dois policiais simplesmente não estavam em seus postos.

Na noite de 3 de dezembro de 1976, sete homens armados entraram na casa do cantor de reggae mais famoso do mundo: Bob Marley.

No pátio da casa, eles encontraram a esposa do cantor e compositor, Rita Marley, e, sem dizer nenhuma palavra, deram um tiro em sua cabeça. Três deles cercaram a casa e os demais entraram na cozinha onde Marley conversava com os integrantes de sua banda, The Wailers, enquanto preparava uma salada de frutas.

De acordo com a jornalista britânica Vivien Goldman, que estava na Jamaica na época, o que aconteceu foi uma cena de fuzilamento em câmera lenta.

Os homens dispararam contra os músicos. O sangue respingou nas paredes e formou poças no chão. Em meio aos gritos, um dos invasores apontou contra o peito de Marley e puxou o gatilho.

No total eles dispararam mais de 80 tiros.

Mas, em um desfecho inacreditável, ninguém morreu naquela noite – ainda que as tensões tenham recrudescido no país.

“We Jah people can make it work.”

Bob Marley

 “Nós, pessoas de Deus, podemos fazer isso funcionar.”

Os dois candidatos a premiê queriam que Marley fizesse campanha para eles. 

E se ele não fizesse, o melhor seria que ele ficasse em silêncio.

A Jamaica estava perto de uma guerra civil

Jamaica, 1976

Mesmo 40 anos depois o episódio ainda é considerado obscuro e envolto em mistério.

Na época, a Jamaica era um país oposto ao seu estereótipo atual. A ilha estava muito longe de ser um tranquilo paraíso caribenho.

Em 1976, quem mandava eram os traficantes e pistoleiros; as tensões sociais estavam em seu ponto máximo e sob influência da Guerra Fria, além de ter estruturas políticas fragilizadas menos de duas décadas depois de sua independência do Reino Unido.

No mapa, a Jamaica está mais perto de Cuba do que Cuba está perto de Miami. E, na cartografia ideológica da década de 1970, Havana e Kingston eram vizinhas de Moscou.

O primeiro-ministro Michael Manley, do Partido Nacional do Povo (PNP), socialista e próximo de Fidel Castro, tentava a reeleição.

Michael Manley, o então primeiro- ministro da Jamaica e candidato à reeleição
Edward Seaga, da oposição em 1976

Edward Seaga, do Partido Trabalhista Jamaicano (JLP) era a oposição. Alguns ligavam Seaga à agência secreta americana, a CIA.

No meio desses extremos estava uma estrela mundial do reggae que tentava manter sua neutralidade, mas cuja música mobilizava centenas de milhares de eleitores.

“The people who were trying to make this world worse are not taking the day off. Why should I?”

Bob Marley, ao ser questionado sobre o fato de comparecer ao show mesmo baleado, o músico disse esta frase, que se tornou uma de suas mais conhecidas

 “As pessoas que estavam tentando tornar este mundo pior não estão tirando o dia de folga. Por que eu deveria?”

Bob Marley levanta a mão dos dois candidatos e pede paz

Ameaças

“Foi a época mais violenta que o país viveu, e Marley era praticamente a única força que poderia unir os dois grupos”, explicou o escritor jamaicano Marlon James.

Em 1976, a fama mundial transformou o cantor de 31 anos em um líder quase espiritual de boa parte dos milhões de moradores da ilha.

O reggae tinha se transformado em uma expressão popular de um país pobre em que “as pessoas estavam cada vez mais desesperadas e violentas”, segundo a jornalista Vivien Goldman. “A ilha parecia cheia de armas”.

Show gratuito

O governo de Manley convenceu Marley a oferecer um show gratuito na capital, Kingston, para acalmar os ânimos da população que já estava cansada de viver em estado de emergência.

O evento estava programado para o dia 5 de dezembro e se chamava Smile Jamaica (“Sorria Jamaica” em tradução livre).

Michael Manley, o então primeiro- ministro da Jamaica e candidato à reeleição

O cantor até alertou que, devido a essa manobra, as ameaças de morte contra ele aumentaram. Mesmo assim, Marley decidiu participar do show.

“Politics no interest me. Dem devil business. Dem play with peoples minds. Never play with peoples minds.”

Bob Marley

“Política não me interessa. O negócio deles é do diabo. Eles brincam a mente das pessoas. Nunca brinque com a mente das pessoas.”

Mas o primeiro-ministro também tomou outra decisão que parecia apenas confirmar a desconfiança do cantor em relação aos políticos: adiantou as eleições para o dia 15 de dezembro.

E, dessa forma, ficou inevitável a associação entre Bob Marley e a campanha de reeleição de Michael Manley.

Jamaica • Kingston • 1976
Bob Marley and The Wailers

Policiais envolvidos?

Dois policiais foram designados para cuidar de sua casa, que também era onde o The Wailers ensaiava.

Mas na noite de 3 de dezembro, dois dias antes do Smile Jamaica, por alguma razão que até hoje ninguém conseguiu explicar, os sete homens armados entraram na casa de Marley sem que ninguém os impedisse.

Os dois policiais simplesmente não estavam em seus postos.

Lendas não desaparecem. De Bob Marley a Usain Bolt, a Jamaica continua produzindo grandes ídolos.

‘Uma breve história de sete assassinatos’

Em apenas cinco minutos, os homens entraram na casa de Marley, dispararam contra todos e fugiram.

Nunca foram capturados e nunca se soube quem eles eram ou para onde foram.

“É um mistério como esses homens, que talvez tenham cometido o crime mais temerário e doloroso da história da Jamaica, simplesmente desapareceram”, contou o escritor Marlon James no site da editora Malpaso.

A editora traduziu para o espanhol o livro que ele escreveu, A Brief History of Seven Killings (em tradução livre, Uma breve história de sete assassinatos).

No livro, James usa como ponto de partida o ataque contra Marley para mergulhar na vida dos bairros mais perigosos de Kingston, nos conflitos de raça e classe, nas guerras entre quadrilhas e nas conspirações de governo.

O resultado são quase 700 páginas nas quais se misturam as vozes de 76 personagens. Com elas, Marlon James venceu em 2015 o Man Booker Prize, talvez o prêmio literário mais famoso do idioma inglês.

De acordo com o jornal americano The New York Times, toda trama social explosiva daqueles anos girava em torno de Bob Marley, que ele tinha se transformado em uma espécie de santo para os oprimidos, um revolucionário para os conservadores e uma ameaça para os políticos.

Marlon James

“I don’t stand for black man’s side, I don’t stand for white man’s side, I stand for God’s side.”

Bob Marley

“Eu não defendo o lado do homem negro, eu não defendo o lado do homem branco, eu defendo o lado de Deus.”

‘Salvo’ por Selassie

Além de não saber como os sete homens conseguiram desaparecer, ainda não se sabe como Marley sobreviveu a um tiro no peito.

O cantor sempre disse que foi salvo pelo espírito de Haile Selassie, o imperador da Etiópia morto no ano anterior (Para rastafáris como Marley, Selassie era a reencarnação de Deus. O uso dos cabelo “rasta” e da maconha também fazem parte desse movimento espiritual nascido na Jamaica).


Haile Selassie

“Se Marley, naquele momento, estivesse inspirando em vez de expirando, a bala teria atravessado seu coração”, afirmou Marlon James.

A bala passou pelo peito de Marley e foi parar no braço esquerdo. Não houve tempo para um segundo disparo.

No meio da confusão, Don Taylor, o agente do cantor, se jogou sobre ele, levando cinco tiros no abdome. Mas sobreviveu.

O caso mais incrível, no entanto, foi o de Rita Marley, a esposa de Bob. A bala disparada contra sua cabeça ficou presa entre seu couro cabeludo e o crânio sem fazer maiores danos.

Museu Bob Marley, Kingston, Jamaica

Dois dias depois do ataque, ainda com curativos no peito e no braço, Marley se apresentou por mais de uma hora diante de mais de 80 mil pessoas no concerto Smile Jamaica.

Rita o acompanhou, ainda usando a camisola do hospital.


Rita Marley, esposa de Bob

“The greatness of a man is not in how much wealth he acquires, but in his integrity and his ability to affect those around him positively.”

Bob Marley

“A grandeza de um homem não está em quanta riqueza ele adquire, mas em sua integridade e sua capacidade de afetar positivamente, aqueles ao seu redor.”

‘Exodus’

Poucos dias depois do show, Marley viajou. Foi para as Bahamas, aos Estados Unidos e depois para Londres. De certa forma, a Jamaica jamais voltou a ser seu lar como era antes.

Mas a tentativa de assassinato inspirou o que a revista americana Time considera o melhor álbum de música do século 20, Exodus.

Estátua de Bob Marley em Kingston

O cantor entrega o microfone a um companheiro de banda e se aproxima do público. Um policial faz a segurança.

Em frente à multidão, a lenda do reggae desabotoa a camisa devagar e mostra o ferimento a bala que cruzou seu peito chegando até ao braço esquerdo.


Marley continuou com esta bala alojada no corpo até o dia de sua morte em 1981, com apenas 36 anos.

“This could be the first trumpet, Might as well be the last, Many more will have to suffer, Many more will have to die”

Bob Marley, na canção ‘Natural Mystic’

“Esta pode ser a primeira trombeta, pode ser também a última. Muitos mais terão que sofrer, Muitos mais terão que morrer.”

No último minuto de um vídeo no YouTube, de imagens escuras e de má qualidade, é possível ver Bob Marley no fim da apresentação do show ‘Smile Jamaica’.